"Aqui ninguém é louco. Ou então, todos o são." (Guimaraes Rosa, Primeiras Estórias)

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Cântico do calvário


À memória de meu Filho
morto a 11 de dezembro de 1863

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.

Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, a inspiração, a pátria,
O porvir de teu pai! - Ah! no entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!

Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, - caíste!- Crença, já não vives!
Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!

Correi! um dia vos verei mais belas
Que os diamantes de Ofir e de Golconda
Fulgurar na coroa de martírios
Que me circunda a fronte cismadora!
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!

Estrelas do sofrer, gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! Sede benditas!
Oh! filho de minh'alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!

Quando as garças vierem do ocidente
Buscando um novo clima onde pausarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!

Não mais invocarei a musa errante
Nesses retiros onde cada folha
Era um polido espelho de esmeralda
Que refletia os fugitivos quadros
Dos suspirados tempos que se foram!

Não mais perdido em vaporosas cismas
Escutarei ao pôr-do-sol, nas serras,
Vibrar a trompa sonorosa e leda
Do caçador que aos lares se recolhe!
Não mais! A areia tem corrido, e o livro
De minha infanda história está completo!

Pouco tenho de andar! Um passo ainda
E o fruto de meus dias, negro, podre,
Do galho eivado rolará por terra!
Ainda um treno, e o vendaval sem freio
Ao soprar quebrará a última fibra
Da lira infausta que nas mãos sustenho!

Tornei-me o eco das tristezas todas
Que entre os homens achei! o lago escuro
Onde o clarão dos fogos da tormenta
Miram-se as larvas fúnebres do estrago!
Por toda a parte em que arrastei meu manto
Deixei um traço fundo de agonias!...

Oh! quantas horas não gastei, sentado
Sobre as costas bravias do Oceano,
Esperando que a vida se esvaísse
Como um floco de espuma, ou como o friso
Que deixa n'água o lenha do barqueiro!

Quantos momentos de loucura e febre
Não consumi perdido nos desertos,
Escutando os rumores das florestas,
E procurando nessas vozes torvas
Distinguir o meu cântico de morte?

Quantas noites de angústias e delírios
Não velei, entre as sombras espreitando
A passagem veloz do gênio horrendo
Que o mundo abate ao galopar infrene
Do selvagem corcel!... E tudo embalde!

A vida parecia ardente e doida
Agarrar-se a meu ser!... E tu tão jovem,
Tão puro ainda, ainda n'alvorada,
Ave banhada em mares de esperança,
Rosa em botão, crisálida entre luzes,
Foste o escolhido na tremenda ceifa!

Ah! quando a vez primeira em meus cabelos
Senti bater teu hálito suave:
Quando em meus braços te cerrei, ouvindo
Pulsar-te o coração divino ainda;
Quando fitei teus olhos sossegados,
Abismos de inocência e de candura,
E baixo e a medo murmurei: meu filho!

Meu filho! Frase imensa, inexplicável,
Grata como o chorar de Madalena
Aos pés do Redentor... ah! pelas fibras
Senti rugir o vento incendiado
Desse amor infinito que eterniza
O consórcio dos orbes que se enredam
Dos mistérios do ser na teia augusta
Que prende o céu à terra e a terra aos anjos!

Que se expande em torrentes inefáveis
Do seio imaculado de Maria!
Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!
E de meu erro a punição cruenta
Na mesma glória que elevou-me aos astros,
Chorando aos pés da cruz, hoje padeço!

O som da orquestra, o retumbar dos bronzes,
A voz mentida de rafeiros bardos,
Torpe alegria que circunda os berços
Quando a opulência doura-lhes as bordas,
Não te saudaram ao sorrir primeiro,
Clícia mimosa rebentada à sombra!

Mas, ah! se pompas, esplendor faltaram-te,
Tiveste mais que os príncipes da terra!
Templos, altares de afeição sem termos!
Mundos de sentimento e de magia!
Cantos ditados pelo próprio Deus!

Oh! quantos reis que a humanidade aviltam,
E o gênio esmagam dos soberbos tronos,
Trocariam a púrpura romana
Por um verso, uma nota, um som apenas
Dos fecundos poemas que inspiraste!
Que belos sonhos! Que ilusões benditas!

Do cantor infeliz lançaste à vida,
Arco-íris de amor! luz da aliança,
Calma e fulgente em meio da tormenta!
Do exílio escuro a cítara chorosa
Surgiu de novo e às virações errantes

Lançou dilúvios de harmonia! O gozo
Ao pranto sucedeu. As férreas horas
Em desejos alados se mudaram.
Noites fugiam, madrugadas vinham,
Mas sepultado num prazer profundo
Não te deixava o berço descuidoso,
Nem de teu rosto meu olhar tirava,
Nem de outros sonhos que dos teus vivia!

Como eras lindo! Nas rosadas faces
Tinhas ainda o tépido vestígio
Dos beijos divinais, - nos olhos langues
Brilhava o brando raio que acendera
A bênção do Senhor quando o deixaste!

Sobre teu corpo a chusma dos anjinhos,
Filhos do éter e da luz, voavam,
Riam-se alegres, das caçoilas níveas
Celeste aroma te vertendo ao corpo!

E eu dizia comigo:- teu destino
Será mais belo que o cantar das fadas
Que dançam no arrebol, - mais triunfante
Que o sol nascente derribando ao nada
Muralhas de negrume!... Irás tão alto
Como o pássaro-rei do Novo Mundo!

Ai! doido sonho!... Uma estação passou-se
E tantas glórias, tão risonhos planos
Desfizeram-se em pó! O gênio escuro
Abrasou com seu facho ensangüentado
Meus soberbos castelos. A desgraça
Sentou-se em meu solar, e a soberana
Dos sinistros impérios de além-mundo
Com seu dedo real selou-te a fronte!

Inda te vejo pelas noites minhas,
Em meus dias sem luz vejo-te ainda,
Creio-te vivo, e morto te pranteio!...
Ouço o tanger monótono dos sinos,
E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!

Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, sinto o aroma
Do incenso das igrejas, ouço os cantos
Dos ministros de Deus que me repetem
Que não és mais da terra!... E choro embalde.

Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe?
No vulto solitário de uma estrela.

E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite,
Nas ondas nebulosas do ocidente!

Brilha e fulgura! Quando a morte fria Sobre mim sacudir o pó das asas, Escada de Jacó serão teus raios Por onde asinha subirá minh'alma.

Fagundes Varela



Em homenagem ao vô do João! :)

segunda-feira, 4 de junho de 2007

terça-feira, 29 de maio de 2007

Campanha:


JÃO, TIRA ESSA BOINA!!!


POR UM MUNDO COM MAIS SCORES!

APOIE VC TB ESSA CAUSA! ;-)
hehehe


sábado, 19 de maio de 2007





Por Chico Xavier.

"Que Deus não permita que eu perca o romantismo, mesmo eu sabendo que as rosas não falam. Que eu não perca o otimismo, mesmo sabendo que o futuro que nos espera não é assim tão alegre. Que eu não perca a vontade de viver, mesmo sabendo que a vida é, em muitos momentos, dolorosa... Que eu não perca a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas... Que eu não perca a vontade de ajudar as pessoas, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir esta ajuda. Que eu não perca o equilíbrio, mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia. Que eu não perca a vontade de amar, mesmo sabendo que a pessoa que eu mais amo, pode não sentir o mesmo sentimento por mim... Que eu não perca a luz e o brilho no olhar, mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo, escurecerão meus olhos... Que eu não perca a garra, mesmo sabendo que a derrota e a perda são dois adversários extremamente perigosos. Que eu não perca a razão, mesmo sabendo que as tentações da vida são inúmeras e deliciosas. Que eu não perca o sentimento de justiça, mesmo sabendo que o prejudicado possa ser eu. Que eu não perca o meu forte abraço, mesmo sabendo que um dia meus braços estarão fracos... Que eu não perca a beleza e a alegria de viver, mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma... Que eu não perca o amor por minha família, mesmo sabendo que ela muitas vezes me exigiria esforços incríveis para manter a sua harmonia. Que eu não perca a vontade de doar este enorme amor que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido e até rejeitado. Que eu não perca a vontade de ser grande, mesmo sabendo que o mundo é pequeno... E acima de tudo, que eu jamais me esqueça que Deus me ama infinitamente, que um pequeno grão de alegria e esperança dentro de cada um é capaz de mudar e transformar qualquer coisa, pois a vida é construída nos sonhos e concretizada no amor!"

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Sentimento

Hoje o Sol se expôs, como faz a flor na primavera, se mostrando linda e radiosa aos insetos e aves que até ela vão. O Sol hoje se expos. Radiante, como o perfume do lírio a purificar o ar com a ajuda da brisa quente. A brisa quente soprou, como sopra o suspiro do ser fatigado, emocionado, sem ar. A brisa quente soprou...!!! Humildemente a flor desabrocha no campo se mostrando grande para o horizonte curto que a envolve. A grande flor se torna a flor perante o grande horizonte. Seu colorido se torna grande expressão de seu poder, da sua cor , pintada com as mãos de Deus, perfumada com o hálito divino. A natureza se torna infinita onde tem condição de se mostrar. Seu poder torna-se ilimitado perto daquele que pensa. Aquele que pensa, quando a vê, apenas vê, não pensando em sentir, mas apenas vê. Apenas vê por que é cego. Apenas vê e não sente por que é cego da alma. Limitado de sentimento, sendo que só vê. E o Sol perante seus olhos, ele continua apenas a ver. Quando fecha seus olhos continua cego e apenas pensa. E o ribeirão apenas corre, lutando contra as dificuldades do terreno para chegar a imensidão do oceano e aquele que pensa apenas vê e não pensa na grande tarefa do ribeirão em se tornar gigantesco oceano. Não vê sua vida como um grande ribeirão, por que apenas pensa e é cego. Apenas pensa e não vê, não sente e não compreende.
Os pássaros no céu, não tem casa, não tem comida na mesa e continuam a milhares de anos a serem os pássaros no céu e aquele que pensa, não vê por que é cego. Não vê os pássaros no céu por que só pensa. É cego e não sente que humildemente os pássaros no céu continuam sendo os pássaros no céu dia após dia.
E o ar continua a manter vivo aquele que pensa, mas aquele que pensa continua cego e não vê que o ar que o mantem roda o mundo, conhece todos os cantos e apenas é o ar que o mantém e aquele que pensa não vê por que é cego. Não vê que o ar que o mantem, simplesmente é o ar que o mantem e que se o ar que o mantem não existir, aquele que pensa ficará mais cego ainda e não verá nunca mais aquilo que nunca viu: o ar que o mantém, a flor no campo, o Sol e o ribeirão.

domingo, 6 de maio de 2007

Imagino situações na qual seremos amplo, na qual nossos corações flamejantes e incandecentes se torne um único junto a Seara Divina.
Foi preciso partir, para que eu pudesse saber que a vida gira ao meu redor e muitas outras situações me esperam, me esperam para me ensinar, assim como essa me ensina.
Foi preciso de fato aprender a perder, para que os olhos da alma pudessem se abrir para a vida que chamava loucamente na minha frente.
Perder, no caso, seria uma palavra forte, pois nunca foi meu, nunca me foi permitido interferir no livre arbítrio, mas sim, me foi permitido aprender a respeitá-lo.
O sempre, não sabemos de fato até quando durará. O sempre das coisas fúteis, mas o sempre do amor, compaixão e solidariedade, sempre perpetuará.
Assim, foi preciso partir, para que meus sentidos se tornassem sensíveis aos estímulos da vida se derenrolando ao meu redor. Agradeço, pois de fato, a vida sem dúvida se derenrola para o crescimento e aperfeiçoamento.
O coração ferido hoje bate compulsivo de trabalho e vontade de amar. Amar de fato, amar sem fronteiras e sem distinção. O caração com o ramo de rosa seco e espinhoso, hoje se torna lindo lírio ao campo aberto, pronto para espalhar seu perfume contagiante. Se torna benção motivadora, força propulsora para as trilhas do aprendizado.
Não sei amar ainda, da maneira como gostaria de fazer, mas o fato de o querer me torna diferente, me torna forte e com punhos firmes para carregar o fardo da lição Divina.
Hoje agradeço!!! Vida....maravilha.....!!!
Com devoção, caminho com o coração.

De fato o fato

Entre fatos e relatos prefiro fatos,
da mesma maneira que entre fatos e relatos
prefiro fatos.

Se for pra escolher relatos ou fatos,
fico com os acontecimentos,
da mesma maneira que entre acontecimentos e relatos,
fico com os fatos.

Fatos e relatos...feito e disfeito.
Se for pra escolher fazer ou contar,
prefiro fatos aos relatos.

Fatos vividos ou fatos contados,
se for pra escolher prefiro os relatos.

Relatos contados ou relatos vividos,
entre eles fico com os fatos vividos.

Agora digo, que tudo é relativo,
inclusive o fato relatado e o acontecimento vivido,
por que se não o fosse seria péssimo.

Seria péssimo saber que tudo seria
fato relatado e relato vivido.

Seria péssimo viver relatos e relatar fatos não vividos,
assim como seria péssimo viver sem relatar e relatar algo não vivido.

Prefiro os fatos vividos aos relatos mentidos,
como prefiro acontecimentos vivos.