Tudo é eterno
Como o caminho das águas,
Porque tudo vai correr bem
Em seu devido lugar.
Às vezes, os caminhos se cruzam
Vamos juntos, caminhar sempre pelo bom caminho
Aventurar-nos no mesmo bonito caminho.
Tudo há de saber, de saltar o saber
Por onde nós andamos,
Por onde nós passamos.
Tudo é eterno
Como o caminho dos ventos
Tudo vem de longe,
Caminhando voltamos ao nosso lar:
Porque tudo é eterno
Quando nós andamos
Quando nós passamos.
*ONDE TUDO É ETERNO, ONDE NADA TEM FIM
(Homenagem a sabedoria milenar dos guaranis – David – 2010)
"Aqui ninguém é louco. Ou então, todos o são." (Guimaraes Rosa, Primeiras Estórias)
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
MEU LUGAR
Quando nasci, aqui neste mundo, não encontrei meu lugar
Não havia tempo ou espaço que me fizessem rir.
Como que as conversas não tivessem cor
E todas as belezas, “admiradas”, fossem sem sabor.
De caminhar... Caminhava!
Rumo? Sim eu tinha, sem mesmo notar.
Via, eu, toda aquela paisagem. Que era o mundo.
Todo ele de braços e eu só de abraços em mim.
Que cai-se uma estrela
Que milagre via neste episódio?
Para mim, de querer cair... Caiu!
Deixou de ser para existir.
Pensava eu nisto ou naquilo,
E numa maré quebrante
Passava por cima de todos
Que sobre “isto” ou “aquilo” me infortunavam.
Deixe ser para estar.
No momento que alguém encontrava seu lugar
Eu sempre ia me despedindo
Sem nunca achar aquilo pelo qual comecei o que digo.
Fui então para lá; no alto, ver tudo por cima:
Milagre da natureza!
Tão semelhante somos as formigas
Escravos, bestas...
Tão homens, tão inconscientes de si.
E vocês, encontrando o que querem para ter:
Que fiquem. Eu já vou!
Pendurei no cometa e parti
Vejo vocês lá de cima (do sideral)
Suas antenas, seus braçais, amantes... Pensadores?
(DAVID – AGOSTO – 2010)
Não havia tempo ou espaço que me fizessem rir.
Como que as conversas não tivessem cor
E todas as belezas, “admiradas”, fossem sem sabor.
De caminhar... Caminhava!
Rumo? Sim eu tinha, sem mesmo notar.
Via, eu, toda aquela paisagem. Que era o mundo.
Todo ele de braços e eu só de abraços em mim.
Que cai-se uma estrela
Que milagre via neste episódio?
Para mim, de querer cair... Caiu!
Deixou de ser para existir.
Pensava eu nisto ou naquilo,
E numa maré quebrante
Passava por cima de todos
Que sobre “isto” ou “aquilo” me infortunavam.
Deixe ser para estar.
No momento que alguém encontrava seu lugar
Eu sempre ia me despedindo
Sem nunca achar aquilo pelo qual comecei o que digo.
Fui então para lá; no alto, ver tudo por cima:
Milagre da natureza!
Tão semelhante somos as formigas
Escravos, bestas...
Tão homens, tão inconscientes de si.
E vocês, encontrando o que querem para ter:
Que fiquem. Eu já vou!
Pendurei no cometa e parti
Vejo vocês lá de cima (do sideral)
Suas antenas, seus braçais, amantes... Pensadores?
(DAVID – AGOSTO – 2010)
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
O MENINO DA CHUVA
“Se pensarmos a vida como um filme - cada momento vivido será uma cena representada. Se pensarmos que cada frase dita por nós, todos os dias, formam versos, então todo dia será feito poesia. Se agirmos todos os dias como membro de uma só família – uma humanidade – então todos serão nossos irmãos” (David).
Era final de Março, dia de intensa tempestade, os meninos andavam de bicicleta procurando abrigo. Carlos, o menor, se desviou da turma, se perdeu em meio ao turbilhão de chuvas. Não enxergava um palmo à frente de seus olhos e decidiu acelerar a pedalada para alcançar seus amigos. De repente, bruscamente, caiu o menino, se esfolando todo naquela rua enlameada.
Ficou estendido na rua, desmaiado no barro por longo tempo. Perderá a consciência quando bateu, repentinamente, sua cabeça no chão. Não tinha noção de tempo nem de espaço. A chuva já afinara, mas, o menino não sabia nem onde estava. Em momento oportuno surge uma mulher, uma senhora das redondezas e apanha o menino nos braços. Leva-o para sua casa. Lá, grita a seu marido Afonso para ir pegar os medicamentos de ferimento. Após o feito, Afonso parte para a rua do acidente para apanhar a bicicleta do menino.
A mulher, também conhecida por Dona Rosa, trata com esmero os ferimentos do menino, como fosse de seu próprio filho. Seu marido pergunta-lhe o nome e onde ele mora. O menino ainda confuso, atordoado pelo acidente, pela casa onde está, pelas pessoas que vê, responde com dificuldade: “Carlos. Chamo-me Carlos. Moro na Rua Jabuticabeiras, na Vila dos Pomares.” O olhar de Afonso para Dona Rosa, nesse momento, foi inevitável.
O casal que acolheu o menino era residente da favela Mãe Maria, próximo à área nobre da cidade, a Vila dos Pomares. Praticamente todos os moradores da comunidade Mãe Maria trabalhavam nas casas dos Patrões dos Pomares, como eram chamados os residentes daquele “nobre bairro”. Eram, em sua grande maioria, carpinteiros, motoristas, jardineiros, caseiros, domésticas, etc. No caso de Dona Maria, era apenas dona de seu lar, mas com muito orgulho. Afonso fazia serviços gerais; quando menino trabalhava na funilaria do seu pai, depois se tornou eletricista por influência do tio e, finalmente, por si só, aprendeu a cultivar plantas e legumes e exercia também o oficio de jardineiro.
Após os curativos, Dona Rosa preparou um café bem forte para o menino, fez um saboroso bolo de milho, lavou-lhe as roupas sujas e lhe deu roupas novas e cheirosas de seu falecido filho, que por coincidência, na hora de seu padecimento, tinha a mesma idade de Carlos, dez anos.
Conversaram na salinha humilde. Dois sofás encostavam-se a duas paredes cegas. Na outra havia uma janelinha que dava para viela de frente. Ao lado o acesso à cozinha e logo à frente o único quarto da casa. Em um golpe de olho era possível ver quase toda a residência.
O menino abriu a sua mochila, tomou seu caderno de escola e mostrou a Dona Rosa e seu marido. “Olha que linda letra ele tem Afonso!” Exclamou a dona de casa. “Sim com certeza este menino é muito inteligente”, retrucou-lhe o marido. Carlos ainda mostrou para o casal o livro que estava lendo, falava sobre deuses e sábios da antiguidade. O material estava meio molhado, mas sua mochila de tecido grosso havia protegido seu caderno e livro. Passaram horas conversando na salinha, o menino não se dava conta que sua família estava a sua procura e o casal se esquecerá que este não era seu filho.
De repente toda aquela emoção do momento foi rompida, gritavam-lhe pelo nome, na rua de cima: Carlos, Carlos! Eram seus irmãos, seu pai e os amigos que lhes mostravam o caminho da ultima vez que viram o menino. Carlos agradeceu a benfeitoria ao casal, deu um beijo em Rosa, apanhou sua mochila e bicicleta e partiu ao encontro daqueles que lhe procuravam.
Carlos a partir desse dia nunca esqueceu Dona Rosa e Afonso. Olhava sua bela casa, sentia seu conforto, mas na verdade queria estar na casa daquelas singelas pessoas. Era apenas um barraco, mas tinha sentimento, emoção, vida. Nada era artificial, tudo era feito com paixão, e as poucas horas que Carlos ali ficou lhe ensinaram isto.
Toda tarde quando saia da escola Carlos se apressava para fazer uma visita ao casal acolhedor. Todo dia a mesma rotina. Carlos chegava à casa de Dona Rosa e o bolo com café já estava posto a mesa. Conversavam sobre todos os assuntos: escola, literatura, estórias. Ficavam por longas horas se divertindo, e antes do anoitecer Carlos se despedia e retornava ao seu lar verdadeiro. Seu pai sempre ocupado, viúvo, não fazia conta das visitas do filho para aquele casal. Só lhe pedia que voltasse antes do anoitecer, pois julgava a favela Mãe Maria como um lugar perigoso.
O menino tornou-se homem na comunidade. Conhecia toda vizinhança. Por anos freqüentava a favela e praticamente passou sua infância e começo de adolescência naquele lugar. Aprendeu muito. Coisas que não se via em seu bairro. Humildade, solidariedade, viver em comunidade foram alguns dos aprendizados. Certa vez colaborou com a família do Seu Dracir a construir sua casa. Foi um belo mutirão que se viu. Todos na rua colaboraram. Todos os dias ele fazia um pouco de tudo, carregava tijolos, confeccionava a massa de cimento, assentava o piso. Foram dois meses de muito trabalho, mas também muito divertimento. O povo era feliz, depois do expediente faziam um jantar comunitário na capelinha do bairro e todos conversavam alegremente. No final da construção, Dracir fez um belo churrasco e convidou a todos para celebrar. Nesta oportunidade Carlos também chamou seu pai, cirurgião de um renomado hospital da cidade, para se juntar a seus amigos. Foi uma linda tarde, como nunca mais se viu por aquelas bandas.
Carlos cresceu e foi à universidade estudar economia. Seu pai desejará isto a seu filho e Carlos não se opunha, achava até interessante. Aos poucos Carlos deixou de visitar o pessoal da comunidade Mãe Maria. Já não havia tempo para isto. O estudo e os estágios lhe ocupavam quase todo tempo. Seu pai, influente na cidade, abrira a porta para Carlos conhecer os mais renomados economistas e empresários da região. Terminou o curso com mérito e logo se envolveu na política municipal.
Agora, Carlos fraternizava apenas nas rodas políticas e empresariais da alta sociedade. Ainda mostrava-se humilde, seus ensinamentos não foram perdidos, mas pouco a pouco se tornavam opacos, sem brilho. O povo da comunidade: Dona Rosa, Afonso, Seu Dracir e todos os outros, sentiam a falta daquele menino-moço, não mais o viam por aquelas bandas.
O povo da Mãe Maria vivia épocas de tensão. A cidade crescerá e ganhará importância e posição de destaque econômico no estado. A cidade recebia a cada dia novos moradores dispostos a investir no ramo imobiliário. O município não era tão grande em extensão territorial e a favela Mãe Maria travava o crescimento da malha urbana na zona oeste da cidade. Na câmara dos vereadores já haviam aprovado a construção do Bairro dos Prazeres naquela área e a justiça já tinha dado a desocupação daquelas terras em favor do município.
O prefeito da cidade retardou o projeto da construção de um novo bairro naquele local. Era época de eleições e como a maior parte dos moradores da comunidade tinha o titulo de eleitor na cidade, preferiu-se evitar o transtorno eleitoral do colegiado, por hora.
Golpe do destino, nesse mesmo ano, Carlos iludido com o poder político se candidatou a prefeito. Tinha uma imagem ótima, filho do Cirurgião Doutor Carlos Camargo Filho, formado em economia pela maior universidade do país, jovem, eloqüente, bonito, com bom circulo de amizades. Não demorou muito para cair nas graças do povo. O pessoal na comunidade logo manifestou seu apoio ao “menino”, talvez fosse à única salvação para toda aquela gente. “Ele há de lembrar onde cresceu”, exclamou Dona Rosa.
Carlos venceu com folga o antigo prefeito da cidade, o velho e rabugento Maciel Medeiros.
De fato, Carlos tinha um belo projeto para sua comunidade, regularizar as terras, construir casas populares financiadas pelo governo federal em auxilio aos municípios em desenvolvimento econômico e dar uma condição melhor a sua segunda família.
Carlos não havia entrado nesta sozinho. Nessa de política é você e sua turma. E a turma de Carlos eram os mais eminentes empresários da cidade, donos de construtoras, casa de materiais de construção, imobiliárias e etc. Para eles, casas populares em lugar privilegiado da cidade próximo ao centro econômico era quase uma heresia. Apresentaram ao novo prefeito uma contra proposta, um loteamento na zona leste, antigo depósito de lixo, para assentar as famílias da favela Mãe Maria. Lugar suspeito, longe da cidade, dos locais de trabalho, tratamento de esgoto, água, asfalto incipiente e tudo mais. Carlos relutou em vão, sem o apoio de sua “turma” não se manteria por muito tempo no governo.
Iludido mais uma vez, assinou o contra-projeto proposto pelos empresários da cidade e autorizou a desocupação da área da favela Mãe Maria. Um dia antes (da desocupação) teve um sonho, lembrou-se daquele belo dia, em que se perdeu por aquelas terras, conheceu uma família maravilhosa, uma comunidade exemplar e aprendeu a ser homem. Logo, em meio a seu sonho, apareceram uns palhaços, com olhos vermelhos, sangue na boca e unhas grandes e sujas. Neste sonho, os palhaços incendiavam as casas da favela e devoravam os moradores, os que sobreviviam eram presos, algemados e jogados no lixo, como carniça. Carlos acordou em prantos, não suportava aquela visão.
O dia D chegou, logo cedo pela manhã, os policiais militares já estavam a postos, armados até os dentes em caso de algum protesto mais exaltado. O povo relutou pouco, as mães choravam, os pais apanhavam o que tinham de mais importante e os filhos andavam pelas vielas da comunidade pela ultima vez. Carlos não teve coragem de comparecer. Ficou em seu gabinete. Triste, mudo, naquele dia não recebeu ninguém. A maior parte das famílias saíram de suas casas, mas permaneceram próximo ao local. Quiseram ver as maquinas destruindo em um dia os sonhos de muitos anos. Era uma comunidade pobre, é bem verdade, mas conheciam bem os princípios solidários que não regem mais nossa sociedade. Meses depois foram transplantados para o novo bairro na periferia da cidade – Vila dos Amores – onde só havia tristeza e lamentações. O local era fétido, por conta do antigo lixão, havia doenças de ratos e tudo mais, não havia transporte eficiente e a água ainda não era 100% tratada. Varreram a comunidade para o lixo, como carniça, igual ao sonho de Carlos.
No mesmo dia em que as famílias receberam suas novas casas, na Vila dos Amores, Carlos assinou sua saída do cargo de prefeito da cidade das ilusões, recolheu-se em seu sítio a 20 km do município e nunca mais foi visto pelo povo da antiga comunidade Mãe Maria.
Dizem por aí que o antigo prefeito ficou louco e todos os dias manda centenas de cartas para a Vila dos Amores pedindo perdão pela sua traição. O povo de fato comenta este acontecido, mas ninguém verdadeiramente dá muita atenção, com tantos problemas em seu dia-dia, já se esqueceram por completo do menino que apareceu em um dia de chuva e foi tratado com enorme cordialidade por aquela comunidade.
David Lugli (Junho de 2010)
Era final de Março, dia de intensa tempestade, os meninos andavam de bicicleta procurando abrigo. Carlos, o menor, se desviou da turma, se perdeu em meio ao turbilhão de chuvas. Não enxergava um palmo à frente de seus olhos e decidiu acelerar a pedalada para alcançar seus amigos. De repente, bruscamente, caiu o menino, se esfolando todo naquela rua enlameada.
Ficou estendido na rua, desmaiado no barro por longo tempo. Perderá a consciência quando bateu, repentinamente, sua cabeça no chão. Não tinha noção de tempo nem de espaço. A chuva já afinara, mas, o menino não sabia nem onde estava. Em momento oportuno surge uma mulher, uma senhora das redondezas e apanha o menino nos braços. Leva-o para sua casa. Lá, grita a seu marido Afonso para ir pegar os medicamentos de ferimento. Após o feito, Afonso parte para a rua do acidente para apanhar a bicicleta do menino.
A mulher, também conhecida por Dona Rosa, trata com esmero os ferimentos do menino, como fosse de seu próprio filho. Seu marido pergunta-lhe o nome e onde ele mora. O menino ainda confuso, atordoado pelo acidente, pela casa onde está, pelas pessoas que vê, responde com dificuldade: “Carlos. Chamo-me Carlos. Moro na Rua Jabuticabeiras, na Vila dos Pomares.” O olhar de Afonso para Dona Rosa, nesse momento, foi inevitável.
O casal que acolheu o menino era residente da favela Mãe Maria, próximo à área nobre da cidade, a Vila dos Pomares. Praticamente todos os moradores da comunidade Mãe Maria trabalhavam nas casas dos Patrões dos Pomares, como eram chamados os residentes daquele “nobre bairro”. Eram, em sua grande maioria, carpinteiros, motoristas, jardineiros, caseiros, domésticas, etc. No caso de Dona Maria, era apenas dona de seu lar, mas com muito orgulho. Afonso fazia serviços gerais; quando menino trabalhava na funilaria do seu pai, depois se tornou eletricista por influência do tio e, finalmente, por si só, aprendeu a cultivar plantas e legumes e exercia também o oficio de jardineiro.
Após os curativos, Dona Rosa preparou um café bem forte para o menino, fez um saboroso bolo de milho, lavou-lhe as roupas sujas e lhe deu roupas novas e cheirosas de seu falecido filho, que por coincidência, na hora de seu padecimento, tinha a mesma idade de Carlos, dez anos.
Conversaram na salinha humilde. Dois sofás encostavam-se a duas paredes cegas. Na outra havia uma janelinha que dava para viela de frente. Ao lado o acesso à cozinha e logo à frente o único quarto da casa. Em um golpe de olho era possível ver quase toda a residência.
O menino abriu a sua mochila, tomou seu caderno de escola e mostrou a Dona Rosa e seu marido. “Olha que linda letra ele tem Afonso!” Exclamou a dona de casa. “Sim com certeza este menino é muito inteligente”, retrucou-lhe o marido. Carlos ainda mostrou para o casal o livro que estava lendo, falava sobre deuses e sábios da antiguidade. O material estava meio molhado, mas sua mochila de tecido grosso havia protegido seu caderno e livro. Passaram horas conversando na salinha, o menino não se dava conta que sua família estava a sua procura e o casal se esquecerá que este não era seu filho.
De repente toda aquela emoção do momento foi rompida, gritavam-lhe pelo nome, na rua de cima: Carlos, Carlos! Eram seus irmãos, seu pai e os amigos que lhes mostravam o caminho da ultima vez que viram o menino. Carlos agradeceu a benfeitoria ao casal, deu um beijo em Rosa, apanhou sua mochila e bicicleta e partiu ao encontro daqueles que lhe procuravam.
Carlos a partir desse dia nunca esqueceu Dona Rosa e Afonso. Olhava sua bela casa, sentia seu conforto, mas na verdade queria estar na casa daquelas singelas pessoas. Era apenas um barraco, mas tinha sentimento, emoção, vida. Nada era artificial, tudo era feito com paixão, e as poucas horas que Carlos ali ficou lhe ensinaram isto.
Toda tarde quando saia da escola Carlos se apressava para fazer uma visita ao casal acolhedor. Todo dia a mesma rotina. Carlos chegava à casa de Dona Rosa e o bolo com café já estava posto a mesa. Conversavam sobre todos os assuntos: escola, literatura, estórias. Ficavam por longas horas se divertindo, e antes do anoitecer Carlos se despedia e retornava ao seu lar verdadeiro. Seu pai sempre ocupado, viúvo, não fazia conta das visitas do filho para aquele casal. Só lhe pedia que voltasse antes do anoitecer, pois julgava a favela Mãe Maria como um lugar perigoso.
O menino tornou-se homem na comunidade. Conhecia toda vizinhança. Por anos freqüentava a favela e praticamente passou sua infância e começo de adolescência naquele lugar. Aprendeu muito. Coisas que não se via em seu bairro. Humildade, solidariedade, viver em comunidade foram alguns dos aprendizados. Certa vez colaborou com a família do Seu Dracir a construir sua casa. Foi um belo mutirão que se viu. Todos na rua colaboraram. Todos os dias ele fazia um pouco de tudo, carregava tijolos, confeccionava a massa de cimento, assentava o piso. Foram dois meses de muito trabalho, mas também muito divertimento. O povo era feliz, depois do expediente faziam um jantar comunitário na capelinha do bairro e todos conversavam alegremente. No final da construção, Dracir fez um belo churrasco e convidou a todos para celebrar. Nesta oportunidade Carlos também chamou seu pai, cirurgião de um renomado hospital da cidade, para se juntar a seus amigos. Foi uma linda tarde, como nunca mais se viu por aquelas bandas.
Carlos cresceu e foi à universidade estudar economia. Seu pai desejará isto a seu filho e Carlos não se opunha, achava até interessante. Aos poucos Carlos deixou de visitar o pessoal da comunidade Mãe Maria. Já não havia tempo para isto. O estudo e os estágios lhe ocupavam quase todo tempo. Seu pai, influente na cidade, abrira a porta para Carlos conhecer os mais renomados economistas e empresários da região. Terminou o curso com mérito e logo se envolveu na política municipal.
Agora, Carlos fraternizava apenas nas rodas políticas e empresariais da alta sociedade. Ainda mostrava-se humilde, seus ensinamentos não foram perdidos, mas pouco a pouco se tornavam opacos, sem brilho. O povo da comunidade: Dona Rosa, Afonso, Seu Dracir e todos os outros, sentiam a falta daquele menino-moço, não mais o viam por aquelas bandas.
O povo da Mãe Maria vivia épocas de tensão. A cidade crescerá e ganhará importância e posição de destaque econômico no estado. A cidade recebia a cada dia novos moradores dispostos a investir no ramo imobiliário. O município não era tão grande em extensão territorial e a favela Mãe Maria travava o crescimento da malha urbana na zona oeste da cidade. Na câmara dos vereadores já haviam aprovado a construção do Bairro dos Prazeres naquela área e a justiça já tinha dado a desocupação daquelas terras em favor do município.
O prefeito da cidade retardou o projeto da construção de um novo bairro naquele local. Era época de eleições e como a maior parte dos moradores da comunidade tinha o titulo de eleitor na cidade, preferiu-se evitar o transtorno eleitoral do colegiado, por hora.
Golpe do destino, nesse mesmo ano, Carlos iludido com o poder político se candidatou a prefeito. Tinha uma imagem ótima, filho do Cirurgião Doutor Carlos Camargo Filho, formado em economia pela maior universidade do país, jovem, eloqüente, bonito, com bom circulo de amizades. Não demorou muito para cair nas graças do povo. O pessoal na comunidade logo manifestou seu apoio ao “menino”, talvez fosse à única salvação para toda aquela gente. “Ele há de lembrar onde cresceu”, exclamou Dona Rosa.
Carlos venceu com folga o antigo prefeito da cidade, o velho e rabugento Maciel Medeiros.
De fato, Carlos tinha um belo projeto para sua comunidade, regularizar as terras, construir casas populares financiadas pelo governo federal em auxilio aos municípios em desenvolvimento econômico e dar uma condição melhor a sua segunda família.
Carlos não havia entrado nesta sozinho. Nessa de política é você e sua turma. E a turma de Carlos eram os mais eminentes empresários da cidade, donos de construtoras, casa de materiais de construção, imobiliárias e etc. Para eles, casas populares em lugar privilegiado da cidade próximo ao centro econômico era quase uma heresia. Apresentaram ao novo prefeito uma contra proposta, um loteamento na zona leste, antigo depósito de lixo, para assentar as famílias da favela Mãe Maria. Lugar suspeito, longe da cidade, dos locais de trabalho, tratamento de esgoto, água, asfalto incipiente e tudo mais. Carlos relutou em vão, sem o apoio de sua “turma” não se manteria por muito tempo no governo.
Iludido mais uma vez, assinou o contra-projeto proposto pelos empresários da cidade e autorizou a desocupação da área da favela Mãe Maria. Um dia antes (da desocupação) teve um sonho, lembrou-se daquele belo dia, em que se perdeu por aquelas terras, conheceu uma família maravilhosa, uma comunidade exemplar e aprendeu a ser homem. Logo, em meio a seu sonho, apareceram uns palhaços, com olhos vermelhos, sangue na boca e unhas grandes e sujas. Neste sonho, os palhaços incendiavam as casas da favela e devoravam os moradores, os que sobreviviam eram presos, algemados e jogados no lixo, como carniça. Carlos acordou em prantos, não suportava aquela visão.
O dia D chegou, logo cedo pela manhã, os policiais militares já estavam a postos, armados até os dentes em caso de algum protesto mais exaltado. O povo relutou pouco, as mães choravam, os pais apanhavam o que tinham de mais importante e os filhos andavam pelas vielas da comunidade pela ultima vez. Carlos não teve coragem de comparecer. Ficou em seu gabinete. Triste, mudo, naquele dia não recebeu ninguém. A maior parte das famílias saíram de suas casas, mas permaneceram próximo ao local. Quiseram ver as maquinas destruindo em um dia os sonhos de muitos anos. Era uma comunidade pobre, é bem verdade, mas conheciam bem os princípios solidários que não regem mais nossa sociedade. Meses depois foram transplantados para o novo bairro na periferia da cidade – Vila dos Amores – onde só havia tristeza e lamentações. O local era fétido, por conta do antigo lixão, havia doenças de ratos e tudo mais, não havia transporte eficiente e a água ainda não era 100% tratada. Varreram a comunidade para o lixo, como carniça, igual ao sonho de Carlos.
No mesmo dia em que as famílias receberam suas novas casas, na Vila dos Amores, Carlos assinou sua saída do cargo de prefeito da cidade das ilusões, recolheu-se em seu sítio a 20 km do município e nunca mais foi visto pelo povo da antiga comunidade Mãe Maria.
Dizem por aí que o antigo prefeito ficou louco e todos os dias manda centenas de cartas para a Vila dos Amores pedindo perdão pela sua traição. O povo de fato comenta este acontecido, mas ninguém verdadeiramente dá muita atenção, com tantos problemas em seu dia-dia, já se esqueceram por completo do menino que apareceu em um dia de chuva e foi tratado com enorme cordialidade por aquela comunidade.
David Lugli (Junho de 2010)
quarta-feira, 30 de junho de 2010
A Farsa
Entre a vigília e o sonho, pensamento me esclarece:
Essa é uma história de milhões,
De uma imensa massa de gente acorrentada,
Presa, sufocada, reprimida e desorientada.
O relógio bem diz que é hora de acordar
Cenas repetidas todas as manhãs
O mesmo armário, roupas, cama.
O bocejar do sem graça, do sem cor, do sem amor
Tudo é tão igual, é mais um dia entre todos os dias.
Mais uma vez no escritório, na fabrica, no hospital, etc.
As mesmas caras, as mesmas pessoas, as mesmas conversas
A repetição eterna, sem fuga, sem afago.
No fim de tarde é hora de ir embora (hora feliz!)
Uns retornam a casa, outros vão à escola.
Tem aqueles de academia e de caminhada.
Todos os dias a ida do mesmo retorno.
Enfim, chega o final de semana
Pensamos: “Estamos livres”
Não amigos! É apenas um tempo agudo que massacra nossa liberdade
Somos iguais cachorros de canil levados para um passeio matinal.
Não somos livres e é isso que quero dizer
Estamos presos, guardados, amordaçados pela rotina
E pergunto: Por quê? Para que?
Se quiseres podes responder um milhão de coisas
Dentre elas escolho estas:
Para acumular reservas financeiras de segurança,
Para garantir um futuro seguro e melhor,
Para a viagem de tua vida,
Para sustentar sua família com televisão e microondas, ou
Para se sentir útil na maquina perversa da sociedade burguesa!
Digo: Que sonhe os infelizes
Também sou um de vocês
Não nego minha condição, mas nem por isso sou hipócrita.
Quero sair da maquininha que nos esgota
Que nos faz perder a critica, a energia e a fé.
Digo a vocês que nossa imaginação e nossos sonhos
Formam o nosso paraíso na terra
Mas, não querem que esse paraíso exista para cada um de nós
Pois, se assim fosse, como iriam nos manipular, nos persuadir, nos enganar?
Quando acordar logo pela manhã, pense:
Será que nossa vida deve ser um “eterno cotidiano”?
O que se pode mudar?
O que, hoje, posso mudar?
Como, agora, posso me mudar?
Será que devemos, para sempre, ser feito conteúdo de um molde?
Uma estatua de gesso com forma pré-concebida?
E o que é pior, já elaborada antes mesmo de nascermos?
Se esgote em tentar responder estas questões
Pelo menos, esse esgotamento não será em vão
É uma tentativa – que já aviso de antecedência – será oprimida pelos outros.
Mas pense por si e não pela maioria
Tu sabes que eles são conduzidos,
Maquiados e manipulados perversamente
Pela mídia, pela indústria, pelo consumo e pela religião.
Sabes que isto é verdade muito antes de eu dizer!
Se não fosse, pelo menos, viveríamos com um pouco de paz
Não seríamos tão agressivos e individualistas,
Egoístas e maquiavélicos.
Se ainda achas que não é bem assim,
Então amanhã, de manhã, quando acordar,
Levante esse pescoço travado e olhe.
Depois de olhar repare, reflita e entenda finalmente o por que!
Por que os rios estão mortos?
Por que não há mais matas que cidades e latifúndios?
Por que os pássaros não cantam mais em nossos terreiros?
Por que as crianças se lançam nas drogas e no crime?
Por que só os pobres e miseráveis estão nas prisões públicas?
Por que grandes criminosos são nossos governantes?
E veras tantos outros por quês!
Que sentirá uma repulsa, um enjôo, uma falta de ar.
Perceberá, finalmente, a grande farsa
Esta grande mentira, tudo isso que é sombrio e ilusório
Toda essa vida vivida sem cor nem sabor,
Sem reflexão nem pensamento.
Aí lhe peço encarecidamente que corras
E se livre dos primeiros grilhões que te prendem
Vá para seu lugarzinho de infância,
Ou em meio à paz da natureza.
Reflita muito, coloque os pensamentos na calmaria do lugar
Veja se teus atos são também uma farsa
Se forem e tu se sentir incomodado, mude!
Mova-se enquanto é cedo, não te negue mais.
Abstenha-se, remodele-se, vire-se e desvire-se, ria, leia, escreva, converse.
Jogue tudo para o ar e apanhe só aquilo que lhe é útil.
Não seja dominado, mas também não se transforme em dominador.
Saia desta regra inútil e destrutiva.
Plante uma arvore e veja-a crescer, florescer, dar frutos e replicar.
Escreva tua vida toda em poesia,
Ame sua mulher todos os dias
Como fosse o dia que a conheceu,
Ame a natureza, sinta o sabor das frutas,
Jogue seu bagaço e sua casca na terra
E veja-a tornar-se preta e fértil,
Faça uma horta, um pomar,
Admire os ninhos e a ninhada das aves,
Observe a chuva e sua posterior calmaria,
Repare ao anoitecer a fauna que aparece
Para viver sob a lua e as estrelas.
Note as estrelas, conte-as e diga a si mesmo
Que cada uma delas é um sonho não realizado.
Sendo assim, realize um sonho por dia,
Viva a vida plenamente e verá que ela não tem fim.
Mas, se porventura achares que tudo isto não passa de linhas
Cheias de palavras inocentes,
E, se já não for mais capaz de imaginar, de se reciclar.
Coloque seu relógio as 06h00min e acorde,
Lave seu rosto, tome seu café, boceje sem graça mais uma vez
E vá trabalhar, esperando que um dia, enfim, tua pobre vida acabe!
(David, Junho de 2010)
Essa é uma história de milhões,
De uma imensa massa de gente acorrentada,
Presa, sufocada, reprimida e desorientada.
O relógio bem diz que é hora de acordar
Cenas repetidas todas as manhãs
O mesmo armário, roupas, cama.
O bocejar do sem graça, do sem cor, do sem amor
Tudo é tão igual, é mais um dia entre todos os dias.
Mais uma vez no escritório, na fabrica, no hospital, etc.
As mesmas caras, as mesmas pessoas, as mesmas conversas
A repetição eterna, sem fuga, sem afago.
No fim de tarde é hora de ir embora (hora feliz!)
Uns retornam a casa, outros vão à escola.
Tem aqueles de academia e de caminhada.
Todos os dias a ida do mesmo retorno.
Enfim, chega o final de semana
Pensamos: “Estamos livres”
Não amigos! É apenas um tempo agudo que massacra nossa liberdade
Somos iguais cachorros de canil levados para um passeio matinal.
Não somos livres e é isso que quero dizer
Estamos presos, guardados, amordaçados pela rotina
E pergunto: Por quê? Para que?
Se quiseres podes responder um milhão de coisas
Dentre elas escolho estas:
Para acumular reservas financeiras de segurança,
Para garantir um futuro seguro e melhor,
Para a viagem de tua vida,
Para sustentar sua família com televisão e microondas, ou
Para se sentir útil na maquina perversa da sociedade burguesa!
Digo: Que sonhe os infelizes
Também sou um de vocês
Não nego minha condição, mas nem por isso sou hipócrita.
Quero sair da maquininha que nos esgota
Que nos faz perder a critica, a energia e a fé.
Digo a vocês que nossa imaginação e nossos sonhos
Formam o nosso paraíso na terra
Mas, não querem que esse paraíso exista para cada um de nós
Pois, se assim fosse, como iriam nos manipular, nos persuadir, nos enganar?
Quando acordar logo pela manhã, pense:
Será que nossa vida deve ser um “eterno cotidiano”?
O que se pode mudar?
O que, hoje, posso mudar?
Como, agora, posso me mudar?
Será que devemos, para sempre, ser feito conteúdo de um molde?
Uma estatua de gesso com forma pré-concebida?
E o que é pior, já elaborada antes mesmo de nascermos?
Se esgote em tentar responder estas questões
Pelo menos, esse esgotamento não será em vão
É uma tentativa – que já aviso de antecedência – será oprimida pelos outros.
Mas pense por si e não pela maioria
Tu sabes que eles são conduzidos,
Maquiados e manipulados perversamente
Pela mídia, pela indústria, pelo consumo e pela religião.
Sabes que isto é verdade muito antes de eu dizer!
Se não fosse, pelo menos, viveríamos com um pouco de paz
Não seríamos tão agressivos e individualistas,
Egoístas e maquiavélicos.
Se ainda achas que não é bem assim,
Então amanhã, de manhã, quando acordar,
Levante esse pescoço travado e olhe.
Depois de olhar repare, reflita e entenda finalmente o por que!
Por que os rios estão mortos?
Por que não há mais matas que cidades e latifúndios?
Por que os pássaros não cantam mais em nossos terreiros?
Por que as crianças se lançam nas drogas e no crime?
Por que só os pobres e miseráveis estão nas prisões públicas?
Por que grandes criminosos são nossos governantes?
E veras tantos outros por quês!
Que sentirá uma repulsa, um enjôo, uma falta de ar.
Perceberá, finalmente, a grande farsa
Esta grande mentira, tudo isso que é sombrio e ilusório
Toda essa vida vivida sem cor nem sabor,
Sem reflexão nem pensamento.
Aí lhe peço encarecidamente que corras
E se livre dos primeiros grilhões que te prendem
Vá para seu lugarzinho de infância,
Ou em meio à paz da natureza.
Reflita muito, coloque os pensamentos na calmaria do lugar
Veja se teus atos são também uma farsa
Se forem e tu se sentir incomodado, mude!
Mova-se enquanto é cedo, não te negue mais.
Abstenha-se, remodele-se, vire-se e desvire-se, ria, leia, escreva, converse.
Jogue tudo para o ar e apanhe só aquilo que lhe é útil.
Não seja dominado, mas também não se transforme em dominador.
Saia desta regra inútil e destrutiva.
Plante uma arvore e veja-a crescer, florescer, dar frutos e replicar.
Escreva tua vida toda em poesia,
Ame sua mulher todos os dias
Como fosse o dia que a conheceu,
Ame a natureza, sinta o sabor das frutas,
Jogue seu bagaço e sua casca na terra
E veja-a tornar-se preta e fértil,
Faça uma horta, um pomar,
Admire os ninhos e a ninhada das aves,
Observe a chuva e sua posterior calmaria,
Repare ao anoitecer a fauna que aparece
Para viver sob a lua e as estrelas.
Note as estrelas, conte-as e diga a si mesmo
Que cada uma delas é um sonho não realizado.
Sendo assim, realize um sonho por dia,
Viva a vida plenamente e verá que ela não tem fim.
Mas, se porventura achares que tudo isto não passa de linhas
Cheias de palavras inocentes,
E, se já não for mais capaz de imaginar, de se reciclar.
Coloque seu relógio as 06h00min e acorde,
Lave seu rosto, tome seu café, boceje sem graça mais uma vez
E vá trabalhar, esperando que um dia, enfim, tua pobre vida acabe!
(David, Junho de 2010)
quinta-feira, 17 de junho de 2010
AS BRUMAS
“Quando se olha para o espelho não se vê, não se enxerga, ficamos parados, mudos e imutáveis, vemo-nos como uma eterna mascara, e não importando sua roupagem, o resto, o que realmente somos, e não o que nossos olhos vêem, muda permanentemente” (Inspirado no conto “O Espelho” de Guimarães Rosa).
Era dia – e meio – entre nuvens cinza e o céu azul. Nesse agudo espaço entre praia e mar, as ondas chicoteavam a areia e emitiam seu peculiar estrondo.
Até mesmo os sirizinhos da praia ficavam meio entremeio. Sob a areia perigo de chuva, em suas casinhas subsolo, sem alimento. Iam e vinham, para fora, hora, para dentro em um momento. Uma dança mímica anunciando a chuva do outro dia.
A outra manhã era cinza. De nuvens uma só, imensa, carregada de água mar vinda lá do sul do mundo e estando aqui, nessa ilhota, despejou-se sem dó, sobre tudo que é praia e mar e sobre todos que são gente, floresta e animais. Não havia jeito, esse tempo sorrateiro nem ameaçava cessar. Era preciso sair desse “entre meio”, ou fica ou vai? Vamos! Decidimos logo. Andemos sobre esse mar e céu de chuva e cinza, nessa pouca luz de nublado.
Nessa caminhada há pedras no caminho. Intransponíveis? Nem tanto. Um pouco difíceis de escorregadias, de chuva, de vento no ar e água nas pedras. Vai de canto, passa no meio, escorrega, toma cuidado e olhe bem por onde pisa! Pula em uma, salta por outra até chegar a seu fim. É beira de praia, passagem uma para outra, estreita que só. Lá em cima, logo no altão, depois de tudo que é pedra, tem outra ainda maior: Imensa Cabeça de Tartaruga, vigia do caminho, porta de entrada da outra praia. Essa se abre, agora, diante de nossos olhos. Original.
Essa outra, muito bonita também, meio enseada, mais fechada, com escarpa bem juntinho da areia marcada por exuberante mata, seus riachinhos cortando toda floresta, beijando o mar. Ó tudo isso fazia refletir luz, mesmo nesse dia, em nossos olhares.
Lá em cima, correndo com o olho sobre a escarpa, no cimo da serra, depois do verde musgo de mata e pouca luz, ali estavam às graciosas brumas: Essência viva do mistério invisível e espírito revelador. Mostra-se toda em plenitude, escondendo algo indivisível e desdobrando o entre meio em tempo inteiro. Tudo isso visto, intuído, aqui de baixo, com olhos pequenos; belo mito a nos revelar.
As brumas mudam tudo em nossa concepção. O pensamento fica mais amplo, abraça o espaço-tempo, traga de uma vez esse tem não tem de toda hora. Ela agora é nossa companheira, em síntese somos: Céu cinza, mar bravo, praia estreita, escarpa florestada, cimo e bruma, tudo junto, interconectado. As brumas nos revelam as belas palavras que nos foram ditas em um tempo inalcançável e fazem-nos despertar sobre a plenitude, a totalidade do universo. Tudo isto também acontece em tempo lento, é pura observação do espírito.
Lá ao longe, damos até logo ao totem “cabeça de tartaruga”, nós já vamos e ele fica para trás. Antes de fim de praia, entre matas e escarpas, uma casa, ou ao menos vestígio dela. Vemos fumaça entre bosque, atividade de fogo cotidiano, intuímos residência, há alguém que mora lá! Por aqui é assim que se vive: barco de madeira no barranco-garagem-frente-mar, casa dentro de mato, da praia só se vê bruma de homem, só vestígio de gente na natureza. Essa essência de vida que já passou ao menos para boa parte da gente, lá resiste, altera-se é verdade, mas conserva-se assim, como dito.
Sem mais. Morro acima. Liso é o morro-sabão, é revelador também, ponte estreita e íngreme de uma a outra praia. Liso barro de chuva fina incessante. Lado de lá, o da descida, é só pedra, acerta o paço, ou melhor, o jeito de pisar e vai olhando atencioso para baixo e sempre em frente!
No fim é outra praia, agora brejo. Difícil penetrá-la. Muitos riachinhos a corta e a chuva só fazem inundar. Tudo isto visto no pé do morro sabão. Olhando, uma vez mais por ele, como breve despedida e ultimo suspiro de voltar a andar, de passagem de vista, outra grande pedra, lá no alto solitário, rosto de perfil de macaco. Mudou-se o dono de “tudo vê” desta praia.
Na agilidade da paciência, tem que se mover entre água, areia, poça e barranco. Atola o pé, pula o riozinho, desvia de lá, sobe no morrinho para algum caminho ver-mos. Hum! Lá no fim dessa praia tem um delicioso suco de manga, viva, gostosa. Foi congelada ainda espumante e fresca, quando era, então, verão. Tudo mudou por aqui, pelo menos em clima e gente, mas o suco, essa manga, parece a de outrora; divino refresco de fruta e chuva fina.
Em nossos corações ouvia-se o palpitar do cansaço da travessia. Devíamos voltar de barco para outro lado da ilha, mas embarcação não mais havia. O que faremos? Retorno imediato, agora, breve, antes de escurecer? Sim, vamos logo, o caminho é difícil e a chuva... Essa agora apertou!
Passo ligeiro, voltando para pousada, ainda na praia, olha lá, as brumas sobre a floresta até parecem pensamentos. Um momentinho que se passa e a brisa do mar a dissolve foi-se a ligeira névoa. Nesse escasso momento de pouco existir, nessa doce ilusão de vagarosamente pensar, forma-se devaneio em meu pensamento: As brumas vêm e vão, anunciam algo que não vemos, mas, que está, sempre, em plena formação, em constante atividade.
Olho do lado e vejo minha existência dissolver-se, revelar-me algo que ainda era nebuloso, me dirigindo para dentro, perdendo as mascaras, engolindo o reflexo. Não me vejo mais, não como “eu”, sou só dissolução, sou só palavra-alma, conteúdo sem limite, sem forma estabelecida. Nesse breve instante, aquele de intuição, de flash, esse devaneio me aparece, como que bruma, escorrego sobre esse mistério, desfazendo-me, diluindo-me e transformando-me novamente em alguma outra substancia, em simples fórmula de natureza.
Logo se volta ao corpo, essa condição insustentável de existir.
(David, 2010, após a “travessia” de algumas praias)
Era dia – e meio – entre nuvens cinza e o céu azul. Nesse agudo espaço entre praia e mar, as ondas chicoteavam a areia e emitiam seu peculiar estrondo.
Até mesmo os sirizinhos da praia ficavam meio entremeio. Sob a areia perigo de chuva, em suas casinhas subsolo, sem alimento. Iam e vinham, para fora, hora, para dentro em um momento. Uma dança mímica anunciando a chuva do outro dia.
A outra manhã era cinza. De nuvens uma só, imensa, carregada de água mar vinda lá do sul do mundo e estando aqui, nessa ilhota, despejou-se sem dó, sobre tudo que é praia e mar e sobre todos que são gente, floresta e animais. Não havia jeito, esse tempo sorrateiro nem ameaçava cessar. Era preciso sair desse “entre meio”, ou fica ou vai? Vamos! Decidimos logo. Andemos sobre esse mar e céu de chuva e cinza, nessa pouca luz de nublado.
Nessa caminhada há pedras no caminho. Intransponíveis? Nem tanto. Um pouco difíceis de escorregadias, de chuva, de vento no ar e água nas pedras. Vai de canto, passa no meio, escorrega, toma cuidado e olhe bem por onde pisa! Pula em uma, salta por outra até chegar a seu fim. É beira de praia, passagem uma para outra, estreita que só. Lá em cima, logo no altão, depois de tudo que é pedra, tem outra ainda maior: Imensa Cabeça de Tartaruga, vigia do caminho, porta de entrada da outra praia. Essa se abre, agora, diante de nossos olhos. Original.
Essa outra, muito bonita também, meio enseada, mais fechada, com escarpa bem juntinho da areia marcada por exuberante mata, seus riachinhos cortando toda floresta, beijando o mar. Ó tudo isso fazia refletir luz, mesmo nesse dia, em nossos olhares.
Lá em cima, correndo com o olho sobre a escarpa, no cimo da serra, depois do verde musgo de mata e pouca luz, ali estavam às graciosas brumas: Essência viva do mistério invisível e espírito revelador. Mostra-se toda em plenitude, escondendo algo indivisível e desdobrando o entre meio em tempo inteiro. Tudo isso visto, intuído, aqui de baixo, com olhos pequenos; belo mito a nos revelar.
As brumas mudam tudo em nossa concepção. O pensamento fica mais amplo, abraça o espaço-tempo, traga de uma vez esse tem não tem de toda hora. Ela agora é nossa companheira, em síntese somos: Céu cinza, mar bravo, praia estreita, escarpa florestada, cimo e bruma, tudo junto, interconectado. As brumas nos revelam as belas palavras que nos foram ditas em um tempo inalcançável e fazem-nos despertar sobre a plenitude, a totalidade do universo. Tudo isto também acontece em tempo lento, é pura observação do espírito.
Lá ao longe, damos até logo ao totem “cabeça de tartaruga”, nós já vamos e ele fica para trás. Antes de fim de praia, entre matas e escarpas, uma casa, ou ao menos vestígio dela. Vemos fumaça entre bosque, atividade de fogo cotidiano, intuímos residência, há alguém que mora lá! Por aqui é assim que se vive: barco de madeira no barranco-garagem-frente-mar, casa dentro de mato, da praia só se vê bruma de homem, só vestígio de gente na natureza. Essa essência de vida que já passou ao menos para boa parte da gente, lá resiste, altera-se é verdade, mas conserva-se assim, como dito.
Sem mais. Morro acima. Liso é o morro-sabão, é revelador também, ponte estreita e íngreme de uma a outra praia. Liso barro de chuva fina incessante. Lado de lá, o da descida, é só pedra, acerta o paço, ou melhor, o jeito de pisar e vai olhando atencioso para baixo e sempre em frente!
No fim é outra praia, agora brejo. Difícil penetrá-la. Muitos riachinhos a corta e a chuva só fazem inundar. Tudo isto visto no pé do morro sabão. Olhando, uma vez mais por ele, como breve despedida e ultimo suspiro de voltar a andar, de passagem de vista, outra grande pedra, lá no alto solitário, rosto de perfil de macaco. Mudou-se o dono de “tudo vê” desta praia.
Na agilidade da paciência, tem que se mover entre água, areia, poça e barranco. Atola o pé, pula o riozinho, desvia de lá, sobe no morrinho para algum caminho ver-mos. Hum! Lá no fim dessa praia tem um delicioso suco de manga, viva, gostosa. Foi congelada ainda espumante e fresca, quando era, então, verão. Tudo mudou por aqui, pelo menos em clima e gente, mas o suco, essa manga, parece a de outrora; divino refresco de fruta e chuva fina.
Em nossos corações ouvia-se o palpitar do cansaço da travessia. Devíamos voltar de barco para outro lado da ilha, mas embarcação não mais havia. O que faremos? Retorno imediato, agora, breve, antes de escurecer? Sim, vamos logo, o caminho é difícil e a chuva... Essa agora apertou!
Passo ligeiro, voltando para pousada, ainda na praia, olha lá, as brumas sobre a floresta até parecem pensamentos. Um momentinho que se passa e a brisa do mar a dissolve foi-se a ligeira névoa. Nesse escasso momento de pouco existir, nessa doce ilusão de vagarosamente pensar, forma-se devaneio em meu pensamento: As brumas vêm e vão, anunciam algo que não vemos, mas, que está, sempre, em plena formação, em constante atividade.
Olho do lado e vejo minha existência dissolver-se, revelar-me algo que ainda era nebuloso, me dirigindo para dentro, perdendo as mascaras, engolindo o reflexo. Não me vejo mais, não como “eu”, sou só dissolução, sou só palavra-alma, conteúdo sem limite, sem forma estabelecida. Nesse breve instante, aquele de intuição, de flash, esse devaneio me aparece, como que bruma, escorrego sobre esse mistério, desfazendo-me, diluindo-me e transformando-me novamente em alguma outra substancia, em simples fórmula de natureza.
Logo se volta ao corpo, essa condição insustentável de existir.
(David, 2010, após a “travessia” de algumas praias)
segunda-feira, 7 de junho de 2010
OPA É A COPA!
Dos sonhos de menino ao presente
A Copa encanta, retrocede, redefine-se
Dantes nos colocávamos no lugar dos craques
Hoje consciente torcemos por eles.
Lembramos de Copas passadas, de como éramos,
o que fazíamos. Nostalgia.
Aquela foto de criança com a camisa amarelinha,
bola de capotão no braço e
papai do lado com uma calça boca de sino.
Amigos juntos no bar. Antigas namoradas
consolam seus amantes numa eliminação
e as cornetas são guardadas e outras
quebradas num ato insano.
Opa ! Vai começar a Copa
Hoje já tem jogo
Pode ser tragédia ou glória
mas com certeza será história.
CIRO R. PIRES
08 /06 /2010
A Copa encanta, retrocede, redefine-se
Dantes nos colocávamos no lugar dos craques
Hoje consciente torcemos por eles.
Lembramos de Copas passadas, de como éramos,
o que fazíamos. Nostalgia.
Aquela foto de criança com a camisa amarelinha,
bola de capotão no braço e
papai do lado com uma calça boca de sino.
Amigos juntos no bar. Antigas namoradas
consolam seus amantes numa eliminação
e as cornetas são guardadas e outras
quebradas num ato insano.
Opa ! Vai começar a Copa
Hoje já tem jogo
Pode ser tragédia ou glória
mas com certeza será história.
CIRO R. PIRES
08 /06 /2010
quarta-feira, 2 de junho de 2010
A INSUSTENTÁVEL GRANDEZA DO SER
Toda grande muralha,
Por maior que seja,
Um dia desmorona.
Vimos isso na história antiga
E também, na mais recente
Mente aquele que diz ser para sempre
Sempre é mudança.
Toda construção
Deve ter base
Ter união
A grandeza se mede
A leveza: sente-se!
Cairão sistemas,
Religião,
Até mundos!
Não cairá
A energia
Que sempre regará
O homem como planta!
Inércia: aqui estamos!
“Estáticos na força dinâmica”
O tempo é longo
As mudanças; nem tantas assim.
Sentado (na inércia) perceba!
O movimento a revelar-te
Aquilo que te falo agora
Verá dinâmica na inércia
E pensamentos que vagam
Querendo encontrar-se
O operário trabalha
E vê a obra realizar
Não se importa, nem se incomoda
Faz por que sabe
E sente-se bem
Pior os que se importam
Verá seus castelos caírem
Como o Feudalismo
E o muro de Berlim
Cairão todos
Tudo!
Romperam os estigmas de outrora
Recordar-se-ão os Historiadores?
Histórias constroem-se
Sozinhas
Nas mãos de muitos!
Sentado vejo barquinho
Derivar sobre a eterna inércia do Oceano
Lá se vai ele
A procura de sabe-se o que... Aonde?
Vai embora
Naquele lado
Outra grandeza vai encontrar
Quanto maior mais difícil
E insustentável
Sustente-se
Na leveza
Na harmonia
E busque aquilo
Que é principio
Em todas as coisas!
(David – 2010)
Por maior que seja,
Um dia desmorona.
Vimos isso na história antiga
E também, na mais recente
Mente aquele que diz ser para sempre
Sempre é mudança.
Toda construção
Deve ter base
Ter união
A grandeza se mede
A leveza: sente-se!
Cairão sistemas,
Religião,
Até mundos!
Não cairá
A energia
Que sempre regará
O homem como planta!
Inércia: aqui estamos!
“Estáticos na força dinâmica”
O tempo é longo
As mudanças; nem tantas assim.
Sentado (na inércia) perceba!
O movimento a revelar-te
Aquilo que te falo agora
Verá dinâmica na inércia
E pensamentos que vagam
Querendo encontrar-se
O operário trabalha
E vê a obra realizar
Não se importa, nem se incomoda
Faz por que sabe
E sente-se bem
Pior os que se importam
Verá seus castelos caírem
Como o Feudalismo
E o muro de Berlim
Cairão todos
Tudo!
Romperam os estigmas de outrora
Recordar-se-ão os Historiadores?
Histórias constroem-se
Sozinhas
Nas mãos de muitos!
Sentado vejo barquinho
Derivar sobre a eterna inércia do Oceano
Lá se vai ele
A procura de sabe-se o que... Aonde?
Vai embora
Naquele lado
Outra grandeza vai encontrar
Quanto maior mais difícil
E insustentável
Sustente-se
Na leveza
Na harmonia
E busque aquilo
Que é principio
Em todas as coisas!
(David – 2010)
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